A história judeo-portuguesa é uma das mais ricas e complexas dos anais do povo judaico — uma história de florescimento cultural, expulsão, conversão forçada e sobrevivência.

O Início de uma Comunidade — Dos Tempos Romanos à Idade Média

Os judeus estabeleceram-se na Península Ibérica desde os tempos romanos, e possivelmente ainda antes. Achados arqueológicos e fontes escritas atestam uma presença judaica na capital romana Olisipo (atual Lisboa) já no século I d.C.

Na Idade Média, sob domínio muçulmano e depois cristão, as comunidades judaicas em Portugal gozaram de um certo grau de autonomia e relativa liberdade. As Judiarias — os bairros judaicos — floresceram em Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e outras cidades.

A Idade de Ouro — Séculos XIII e XIV

No seu auge, a comunidade judaica em Portugal contava dezenas de milhares de pessoas e desenvolveu magníficos centros culturais e espirituais. Sábios da Torá, médicos, matemáticos, astrónomos e ministros judeus serviram o reino português e contribuíram muito para a sua cultura.

Entre as figuras notáveis: Dom Isaac Abravanel (1437–1508), o grande comentador bíblico e ministro das finanças, e Abraham Zacuto, o astrónomo cujas obras ajudaram os navegadores portugueses a descobrir a rota marítima para África e Índia.

A Expulsão — 1496

Em 1492, os judeus de Espanha foram expulsos pelo Édito de Alhambra. Cerca de 100.000 refugiados espanhóis encontraram refúgio em Portugal sob o rei D. João II. Mas em 1496, como parte de um acordo de casamento com Espanha, D. Manuel I também ordenou a expulsão dos judeus de Portugal.

A expulsão portuguesa diferiu da espanhola: em vez de permitir a emigração, o rei ordenou a conversão forçada das crianças judias, mantendo-as assim no país. A maioria dos judeus adultos também foi “convertida” numa cerimónia forçada, tornando-se Cristãos Novos — também conhecidos como Marranos ou Conversos.

Os Anussim — Judeus em Segredo

Milhares de famílias, privadas da sua identidade judaica pela força, continuaram a observar secretamente costumes judaicos. A Inquisição Portuguesa, estabelecida em 1536, perseguiu-os durante séculos.

Os Autos-da-fé foram cerimónias públicas em que os cripto-judeus eram julgados e, por vezes, queimados na fogueira. Milhares morreram; muitos outros fugiram para Amesterdão, Itália e o Império Otomano, onde estabeleceram magníficas comunidades sefarditas-portuguesas.

Sobrevivência e Reconciliação — Do Século XX até Hoje

Em 1910, com o estabelecimento da República Portuguesa, a proibição de residência judaica em Portugal foi levantada. Pequenas comunidades judaicas regressaram. Nos anos 30 do século XX, durante o Holocausto, Portugal serviu como estação de trânsito para o resgate de milhares de refugiados judeus europeus.

Em 2016, Portugal deu um passo histórico de reconciliação: a lei de cidadania para descendentes de exilados sefarditas permitiu que milhares de judeus em todo o mundo solicitassem a cidadania portuguesa — um importante ato de cura que reconhece a injustiça histórica.