Os Anussim — judeus forçados a converter-se mas que mantiveram secretamente a sua fé — representam um dos capítulos mais dramáticos da história judaica.

Quem São os Anussim?

O termo Anussim (hebraico para “os forçados”) refere-se aos judeus que foram obrigados a converter-se ao Cristianismo mas que continuaram a praticar secretamente as tradições judaicas. Em Espanha e Portugal também eram chamados Conversos, Cristãos Novos, ou pelo termo depreciativo Marranos.

Após a expulsão de Espanha em 1492 e de Portugal em 1496, centenas de milhares de judeus enfrentaram uma escolha terrível: exílio, morte ou conversão. Muitos optaram por manter uma aparência cristã enquanto praticavam secretamente o judaísmo em completo sigilo.

Vida Sob a Inquisição

A Inquisição Portuguesa foi estabelecida em 1536 e funcionou até 1821. Formou investigadores que visitavam casas, bisbilhotavam conversas e recebiam denúncias de vizinhos. Qualquer sinal de judaísmo poderia levar à tortura e à morte.

Segundo os investigadores, entre 1536 e 1821, a Inquisição Portuguesa julgou cerca de 40.000 pessoas, das quais cerca de 1.200 foram publicamente queimadas nos Autos-da-fé.

Como Preservaram o Judaísmo?

  • Shabat Secreto — Acender velas em quartos interiores, longe das janelas
  • Kashrut — Evitar carne de porco e peixe não-kosher
  • Orações — Recitar salmos hebraicos de memória, sem os livros sagrados proibidos
  • Yom Kipur — Jejuar com a desculpa de “doença de estômago”
  • Luto — Costumes judaicos de luto em quartos escondidos
  • Transmissão da Identidade — Mães passando o segredo apenas às filhas

A Comunidade de Belmonte — Uma Sobrevivência Extraordinária

O exemplo mais notável de preservação da identidade judaica é a comunidade de Belmonte, no nordeste de Portugal. Até ao século XX, esta comunidade manteve costumes judaicos em completo sigilo — durante cerca de 500 anos!

Em 1917, o investigador governamental Capitão Artur de Bragança Pinto descobriu pela primeira vez a sua existência. Em 1988, a maioria dos membros da comunidade regressou publicamente ao judaísmo e construiu uma sinagoga. Hoje, a sinagoga de Belmonte é um local de peregrinação.

Reconhecimento Internacional

Em 2015, o Rabinato Chefe de Israel determinou que os descendentes de Anussim que regressam ao judaísmo não precisam de se submeter à conversão.

A lei de cidadania portuguesa para descendentes sefarditas (2013, 2015, 2022) é também um ato de reconciliação — reconhecimento estatal do erro cometido contra os seus antepassados.